segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Putrefação Do Sepultura No Cavalera Conspiracy



Nunca vi arrotar e expelir um metal precioso com tanta facilidade diante do microfone no pedestal. Presenciei a fúria de um monstro que nos momentos mais violentos abria a mão como que segurando um coração pulsante. Com as barbas de um filósofo grego e os cabelos enraizados com tocos de uma velha árvore africana, Max Cavalera é um ícone blasfemado por ele mesmo, que quase não permite risada tamanho o medo de o ofender. A prosódia na condução das palavras é de um João Gilberto, e com a consistência de um Lemmy do Motorhead a coisa vai absorvendo tons, ora de um defão estilo Deicide, ora de um estridente grito black metal, mas é com a síntese no thrash metal gutural e falado que transmite sua filosofia. Essa foi a minha impressão do show do Cavalera Conspiracy, que aconteceu na noite de ontem no Ilha Shows. “Vamo botar pra foder Vitória filha da puta” foi a frase que consegui montar diante de tanta consciência do submundo infernal que o cara deixa na maior paz, numa negatividade positiva. Aí me veio à lembrança, houve um tempo que fui um metaleiro e reneguei a influência do samba, que eu tinha em casa e, querendo ou não, escutava desde criança. Até que ouvi o Roots, com um tanto de vibração indígena da tribo Xavante. Depois ouvi o disco Sepultura: B – Sides, com Zé do Caixão, Lampião e Zumbi dos Palmares na capa frontal, uma coletânea, que tenho até hoje, com o destaque da remasterização carnavalesca, que alguns amigos odiavam e outros gostavam ironizando. E por último veio o primeiro disco do grupo que ele montou após deixar o Sepultura, o Soulfly, que logo adquiri e vi uma lista de agradecimentos imensa no encarte, desde João Gilberto e Jorge Ben Jor (com uma bela regravação de Umbabarauma) a Motorhead e Napalm Death. Passei um tempo deglutindo aquele vômito de influências, pensando se era possível tamanha síntese. Após deglutir, acabei me abrindo pra outros estilos musicais, principalmente brasileiros, resgatando tudo que me influenciou, querendo ou não, e passando pra literatura, arte que não sei se eu escolhi ou ela me escolheu pra expressar. Então, ao ir ao show, pensei em levar o meu livro Classe Média Baixa pra dar de presente ao Max. Não acreditando na possibilidade, que no final do show um amigo me mostrou ser possível, conseguindo um autógrafo do baixista Nate Newton, que logo após o show, fumava numa zona lateral à entrada, que os seguranças ainda não tinham bloqueado, acabei por deixar o livro em casa, num arrependimento amargo. Ao chegar em casa disse pra minha companheira que devia ter levado o livro e dado pro baixista entregar ao Max. Sabendo da minha inexistente fluência no inglês ela disse: Difícil seria você conseguir se comunicar com ele. No que eu disse: Nada! Seria fácil, eu ia dizer ao entregar o livro: Max, bossa nova, samba, gesticulando e rindo um bocado.

18 de Maio, 2015.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Vem Pra Rua e Vamos Pra Rua: Duas Tribos, Agora Sem Máscaras


Junho de 2013 foi marcado pelo movimento “Não é apenas por 20 centavos, é por direitos” cuja adesão e confusão de propostas fez com que o V de Vingança fosse o símbolo das manifestações, com forte adesão do uso da máscara pelos manifestantes, embora muitos já não a usassem. Março de 2015, a família classe média conservadora, que se sente parte da elite, não aguentou a força do carnaval, da paródia com o “Vem Pra Rua” da Ford, da paródia com a mídia manipuladora, e sobretudo não querem apreender a música “Brasil”, que diz: ("Pobre de mim que vim do seio da burguesia/ Sou rico mas não sou mesquinho (acrescento, fui criado pela mídia mas não sou mesquinho)/ Eu também cheiro mal/ Eu também cheiro mal", que eu já destacava em um texto que escrevi em Junho de 2013, imaginando alguma sinceridade e alteridade de parte da classe média, assumindo assim sua aliança com o povo e desconstruindo seus privilégios, recusando uma manipulação parecida com a que possibilitou a ditadura militar. No entanto, pude constatar na manifestação de domingo que o país não vai bem em redação, quando não é a da Globo, e a classe média conservadora ainda reclama de Paulo Freire, como se tivesse sido ele o responsável pelo tema gerador. E como se não bastasse, tive de assistir um agito de som com “Brasil” tocando no carro em meio a manifestação, constatando que Cazuza estava certo, eles veem “TV a cores/ Na taba de um índio/ Programada pra só dizer 'sim, sim'". Já aqui em casa, do outro lado, também vi a onda do povo, os peles vermelhas, contra a corrupção, sim, dos conservadores e ladrões que roubam o país há mais de 500 anos incluindo aí todo simulacro verde-amarelo, dos devastadores das matas, que também fizeram com que o povo nordestino sofresse por séculos com o amarelo da seca. E como a TV aqui de casa não estava programada, pude projetar um Brasil mais Maduro, uma classe média mais Madura, mesmo que dividida, e uma crescente resistência, dos que nunca dirigiram em propaganda da Ford, nunca dividiram mesa em propaganda da empresa JBS S.A., onde só sentam brancos e os negros os servem, mas que mesmo assim têm plena fé que esse não é o Brasil que o Gonzaguinha projetava em seu canto. E “vamos lá fazer o que será!” Vamos ou não vamos?!

16 de Março, 2015.

sexta-feira, 13 de março de 2015

O Cosmopolitismo Dos Exilados Na Luta Por Um Projeto De Homem


A melhor máscara de super-herói é feita de gaze, curativo e cara inchada, do sangue coagulado. Birdman, o Ícaro hollywoodiano, tem o seu charme feito de frases velozes, de uma verdadeira histeria Woodyalliana com a violência existencial de Godard. O estúdio da Broadway torna-se um grande labirinto, imenso para o espectador, embora pequeno para o cotidiano teatral de Riggan Thomson, a ponto de a rua ser uma extensão do camarim, onde sai pra fumar, de robe e cueca, tendo de deixar o robe ao ficar preso na porta e trancado pelo lado de fora. Enfrentar a rua sem a fantasia burguesa ou heroica a tempo de voltar e apresentar a peça é o verdadeiro teatro a céu aberto! E os flashes de celulares captam o inusitado da rotina burguesa, maravilhosa de tanto não se suportar! No que eu disse a minha companheira, que assistia comigo: Polanski é que vai gostar dessa nova leitura dos cômodos de apartamentos e departamentos kafkianos, quando assistir (na verdade disse sobre Woody Allen, a referência a Polanski adaptei agora), corrigindo-me logo em seguida, dizendo: Aliás, já gostou, né, pois com certeza já assistiu! Quem sou eu pra assistir antes deles?!, eles são os caras! A desconstrução norte-americana, os americanos desamericanizados; eu, um mero latino, como o diretor Alejandro González Iñárritu só posso lê-los e desfazer o sonho americano, quebrando a cara como todo mortal no contemporâneo da vida burguesa, ainda que um projeto de homem cresça ainda mais a cada queda de voo rasante; ainda que um tanto ignorante.

13 de Março, 2015.

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Seleção Da Alemanha E A Ópera De Richard Wagner


Na boa, a tática e a harmonia da seleção da Alemanha me lembrou uma ópera de Richard Wagner. Pena é essa seleção acertar o seu melhor desempenho em cima da seleção brasileira, pois nos mínimos detalhes parecia uma brincadeira, com tudo dando certo pra Alemanha. Senti falta de um bom rito carnavalesco, com o espaço público refletindo muito dos arranjos socialmente possíveis no país, mas a racionalidade alemã superou o que não superamos, isto é, o futebol refletir apenas um fator da vida social, sem reificação, e com muito do que tem pra oferecer em persistência, longo prazo, e compreensão de que o mais importante é dar o seu máximo de empenho, mental e corporal, independente do resultado, pois a realização em si já é uma vitória. Vergonha foi a seleção da Alemanha treinar na Bahia e enxergar que no entorno do seu centro de treinamento havia uma vida socialmente miserável, e ter assim de tirar do seu bolso pra estruturar um campo periférico no país sede. Foi bonito ver essa seleção alemã jogando, me lembrei dos bons dribles e passes de uma pelada suave, com goleada e time que não perde, de tão exercitado e entrosado, mesmo que por acaso, o que o Brasil não pode mais fazer, pois por acaso é raro, e não podemos depender desses momentos.

8 de Julho, 2014.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ultraje Do Morro Ao Traje A Rigor


Eu estava no Sambão do Povo quando ouvi o coro da Imperatriz do Forte abrir a noite de carnaval com suas cítaras disparadas ecoando “Nós Vamos Invadir Sua Praia” num tom que firmava colunas gregas sobre a montanha do fundo. Ser levado àquela noite por aquelas vozes já tinha valido o ingresso, que nem é caro, se tratando do Grupo B de Acesso, como sintetizou Francisco Velasco na noite posterior, que acabou me dando sono e dormi; mas independente do preço, na sexta-feira é o dia que acho melhor, apesar de nunca ter ido ao sábado, neste dia tem espaço pra sambar e andar quando necessário, mas só a São Torquato e a Pega no Samba com suas baterias envolventes me levaram a primazia de sambar. Neste dia coisas engraçadas acontecem durante o desfile, como as asas soltando do corpo da passista enquanto a amiga de asas inteiriças tenta consertar antes de chegar aos jurados; o pé descalço depois da sandália arrebentar criando um jeito triste de caminhar; uma ala combinando em não usar parte da armadura deixa em dúvida se foi proposital ou não; cidadãos gregos em enredo que não fala nada da Grécia; a força de uma escola a despontar como vencedora, até mesmo do Grupo A, como a Pega no Samba. Nesse dia a imagem punk-pop do Ultraje A Rigor foi sustentada por todo o entorno do cenário desaguando numa ópera gutural firmada por um cavaquinho que soube construir a montanha por dentro, sem carregar o peso das colunas, fazendo das rochas assentadas nas cordas dos instrumentos a sua essência. Não sei se a versão que nos foi apresentada foi criada por aquele coro, mas toda a música parecia deles. Contradizendo a clareza apolínea recomendável, aqueles compositores e interpretes traziam um dionisíaco necessário, talvez construído por conta da homenagem que prestavam aos 60 anos da FAMES, pois aquilo não era rock, nem samba, nem punk, nem ópera, era a suspensão da linha divisória, e eu já não estava na arquibancada, nem no camarote, nem na avenida, nem na escola de música, eu estava na linha do horizonte, era dia e eu estava simplesmente na praia.

10 de Fevereiro, 2015.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Nova Esquerda Sabe Dançar


Meu Deus, Deus está morto!? É a frase do aluno ofuscada pela coroa de estrelas centralizada e margeada por listras vermelhas e brancas da bandeira imperial na testa do inventor bem-sucedido, criador de armadilhas pra pegar pato. A nova esquerda questiona o sacrifício, principalmente quando a entrevistadora se vê com estrelas cancerígenas dentro do corpo, mas sem o apego que as façam apagar, de um namorado, de uma irmandade, de uma seita, de um partido, é convertida, e vê brilhar ainda mais as estrelas da nova esquerda. Isso porque o mal só existe por conta do livre arbítrio, e Deus só o concede para que seja o bem vitorioso. O professor que é o mal é atropelado, e cai na armadilha. E o aluno, sua antítese, o convence de que sua moral apesar de todo o seu ateísmo é cristã, e quem ele quer reprovar é Deus, não ele, por ódio ou por vingança. A garota que apanha do pai muçulmano e fundamentalista por confessar ser cristã é convertida e cai na armadilha, aumentando a luminosidade da coroa de estrelas. E o herói comanda o cortejo para o show de rock gospel, com os personagens citados, o professor atropelado, e ainda outros não citados, inclusive um chinês, estrategicamente posicionado no extremo ocidental do mapa, com sua estrela amarela ofuscada. Dois padres repetem que Deus é bom para manter a calma diante de algumas falhas de ignição do carro que pretendem alugar, levado a eles por mão divina, pois no final, é a fé que o faz funcionar. E o professor é convertido com a benção dos padres, que por um acaso divino o encontram na estrada, com o cortejo dançando o rock da crença no Deus que sabe dançar. A nova esquerda senta à direita do imperialismo, e sabe dançar. Sim, ainda é o homem que dança, cria, e como não pode fazer muita coisa avacalha.

26 de Janeiro, 2015.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A Árvore Da Memória No Badalar Dos Sinos Natalinos


Deitar sobre o chão, escutando o som das raízes, no limite do subsolo, e sobre a sombra da árvore acolhedora ser um fruto que na idade madura se desprende pra ser livre nos dentes do mundo, ou se deteriorar, sem dentes, sem mãos que lhe ergam do solo, testemunhando as cores do sabor estendido nos livros, nos lugares por onde passa. Para o fruto que fica na árvore, após o amadurecimento, sutilmente namora-se as bicadas de um passarinho, desfazendo-se lentamente, ou mesmo, nas mordidas de um morcego, que agourento ou não traz nos dentes os arroubos da paixão, verá a pressa da morte, sem os cuidados da progressão cotidiana do passarinho com um canto de afago, embora dividam a viagem do sono durante o dia, presos no mesmo galho, por puro romantismo ou exibicionismo do morcego, usando do próprio esforço para descansar (e de cabeça pra baixo!), provocará o deslumbre e o estremecimento da árvore, das folhas, e de todas as frutas. A vida é assim, como a árvore, parada ou não lhe implica um movimento, um desarranjo para arrumar, vindo de dentro ou de fora, pode desprender um fruto, afagar um pássaro, espirrar com uma ventania, soltando algumas melecas de folhas; tudo se altera. Eu mesmo montei esse cenário após revisitar algumas memórias, por implicação de um filme que recebeu nota baixa do New York Times, da revista Rolling Stones e de boa parte da mídia formadora de opinião, cujo fruto se chamava Jonas, um jovem em formação para a profissão de Guardador de Memórias (talvez um tipo de escritor, oráculo ou sacerdote), designado por vocação e por não se encaixar em nenhuma outra (tipo no Divergent, pra quem assistiu, mas não podia trocar de profissão e raramente alguém era designado para esta). Aí não sei se o cenário me veio por conta da Baleia, do lugar perfeito que era sitiado, sem amor, sem paixão (ao menos para os alarmes da precisão de linguagem), da queda do fruto derrubando as fronteiras, dentro e fora do triângulo edênico, do movimento do mar (as cores) em seu corpo preto e branco, do amigo e da namorada, do garoto Gabriel, protegido por Jonas que foi além da casa da margem, após escapar dos perseguidores, que eu não sei se eram de Herodes, de Hitler, ou da CIA, só sei que era natal, e o garoto, se levar a sério a aprendizagem, passará pelas mesmas provas, jogando com as mesmas dúvidas da memória, entre o real e o ficcional. E imagino que durante o natal, ele não vai querer assistir a nenhum filme natalino, vai ser surpreendido pela memória, e vai ficar intrigado com os presentes, montando alguma árvore futurista.

27 de Dezembro, 2014.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

São Francisco Em Quadro De Vik Muniz


Eu estava vestido de São Francisco, disposto a desfazer as armadilhas da mata escura. Mas quem sou eu pra emprestar a roupa que me foi dada de esmola, embora conversasse soberanamente com os transeuntes, com a voz a preço de moeda, não posso desfazer os matizes cara-coroa, e no fundo nem peço. Há muitos irmãos por parte de ninguém, e ninguém, é eco perdido, que engana a quem mirar. Quando alguém canta e só ouve a própria voz, aprende a enfrentar ninguém, e aí mora o perigo. É preciso criar alguém. Ninguém, são as multifaces de São Francisco, quimeras do desterro de quem se volta contra si, é Hulk Magrelo, rosto de São Francisco levando Soco na Cara, símbolo do mercado, da violência, Andy Warhol e suas voltas com Guevara, a outra face da pop art, do mercado negro, e eu admito que é bela, frouxa como gargalhada, mas forte como o choro, que também é bonito. Tudo é belo e pra ninguém, que alguém usufrui, eu usufruo e você usufrui, mas não chega a ser alguém, ainda são as armadilhas de ninguém, que mora na mata escura, o outro lado da moeda, cravada na mão, no chão. Todos escapamos, deixando alguém às voltas com ninguém, sem chegar nem perto, e todos encontramos os ecos na próxima quimera. Serão precisos quantos pedaços de ninguém até se fazer de alguém São Jorge, com o brilho humilde da moeda de São Francisco?

21 de Dezembro, 2014.

Primavera No Céu Do Aribiri


Andar parado, feito o garoto da fábrica, entre o Morro do Jaburuna e o Convento da Penha, quando toda vila exala o cheiro de chocolate, faz lembrar o Hobbit quando ao andar pelo vale das sombras, na angústia da escuridão, ao enxergar um pedaço de sol, resolve subir nas árvores até o topo, e de cima consegue respirar o alívio, a saída do sufoco, na primavera das flores rosadas junto ao crepúsculo. Aqui são acácias, flambuaiãs, mangueiras, coqueiros, pinheiros, rimas, diferente do Hobbit, mas junto ao filme vejo um mar de castanheiras que combinam ao sabor do chocolate, e sinto a possibilidade de andar sobre as copas, na gramínea dos ramos. Aqui há janelas no céu lampejadas de prata, cujas nuvens passeiam com mais leveza, formando espelhos e plataformas bem divididas pelos blocos de nuvens, cuja alvorada forma cordilheiras lá pelo ocaso do mar de Itapuã. Vejo um céu abençoado pela natureza junto à força do homem. Sei que a fábrica de chocolate, cada vez menos Glória, distancia-se na neblina, quando o tempo se fecha e o Convento fica muito embaçado, e sei dos contrates com a vila e o Morro do Jaburuna, mas há de habitar e percorrer os campos, cravar as mãos, a boca nos serenatas, subir à penha do ConventoJaburuna, pra fazer amplos os percursos, sem abafar ninguém.

8 de Dezembro, 2014.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Geologia Do Parágrafo Na Formação Paratodos


Soa uma ideia no seu ouvido, pra implodir parágrafos, escorregadios como limo, firmes como o peso dos degraus. Isso de estar dentro ou fora do barco percorrendo as ruas vazantes, descobrindo pedações de paredes, ostras não corroídas, guardando gestos do entorno, se parece muito com a gestação, mas quem dá a ideia tem de saber onde colocá-la. As locas aguardam as águas da preamar, da baixa-mar, formam-se de prata peixe, bamboleio, caranguejo, e o costado sempre brilha, curtido de vida. Mas isso é de filho, é de mãe, é de mar e céu, se a terra trouxesse só assim com o sol, saberíamos que as garrafas pets, sacolas plásticas, aços, madeiras, engenhos de trapiches, ao invés de dar ideia só desmancham a festa dos debaixo, que quando sobem recebem uma sacola de lixo dos de cima, e sem saber da deterioração que receberam seguem as regras do mercado. Queremos nos ver no poço de petróleo, na camada pré-sal com o cristalino tocando os grãos de arei até subir, e na vazante da preamar, da baixa-mar, vermos a cidade que construímos, sem debaixo, sem de cima, tudo ostra, loca, gestação da vontade de dentro com a de fora, onde não há delações premiadas de gestões anteriores, onde não segue a regra do mercado, e só há mercado na gestão do comum, na gestação anterior, presente paratodos.

13 de Novembro, 2014.

O Cientista Social De Alphaville


Após a vitória da Dilma, e muito durante o processo de eleição, os extremistas de direta começaram a mostrar as asinhas, que sempre estiveram ali, acumulando-se das asas dos que voam de pé no chão, pois sempre souberam do calor, da deterioração provocada por ele, o status quo. Bater um papo com o médico branco em inglês, numa consulta de rotina, sobre as 214 pontes existentes sobre o Rio Tâmisa é uma beleza! E a Tower Bridge, quando içada para embarcações de maiores dimensões passarem!? Que maravilha! Os feridos estão aguardando na Emergência. Ah, mas as plataformas suspensas é coisa de se admirar! Sabe... eu queria era trazer uma ponte dessas pra Vitória, nem precisa ser a Tower Bridge, a London Bridge já bastaria, como os americanos fizeram, dizem que por engano, comprando peça a peça, depois reconstruindo em um parque de diversões no Arizona. Isso sim é progresso! Tinha de colocar uma no canal de irrigação do Projeto Central do Arizona, que desviou água do rio Colorado, para aí sim dar uma dimensão de civilização para aquele clima árido ou semiárido. Imagina uma dessas na transposição do Rio São Francisco. O sangue escorre do ferimento, o cirurgião não comparece, os enfermeiros comprimem o charco sanguíneo, igual o das enchentes, seria preciso uma galeria pra estancar todo o sangue, era o que se ouvia pelo corredor. O único médico negro do hospital foi fazer a cirurgia, calado, refletindo sobre a violência nessas capitais, de amplos capitais, amplas comportas empresariais, condomínios, plano Alphaville. O branco foi embora, pois era fim de expediente e não estava de plantão. Já estava tudo preparado para a viagem a Londres, cidade que conhece desde a tenra idade, pra ele, um verdadeiro parque de diversão, onde leva os filhos pra recriar, longe da violência. O cientista social, que adorou o papo, vai para o condomínio Alphaville, planejado por ele, satisfeito pela consulta, realizada fora, dentro de Alphaville, pois em Alphaville não tem hospital.

6 de Novembro, 2014.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Os Incompreendidos: Dilma, Mídia e Poesia


Vá para a Escadaria do Rosário, com seus sarais exercícios, corporais, espaciais, medicinais, de subidas e descidas, prosódia rap, do centro que leva à cidade alta, à cidade baixa, à fala MarginalES, de fanzines entalhes. Agora pensando, vejo o motivo de ter falado sarais ao invés de saraus numa entrevista que dei hoje cedo para um grupo de meninas do Colégio Estadual, que me pediu pra falar um pouco sobre o cenário da literatura produzida no Espírito Santo. Estávamos no entorno da lagoa da UFES. Foi só me despedir das meninas que vi a gralha voando em busca de um lugar. É... A vida é feita de improvisos, imprevistos, ensaios que tocam todo o presente. Aí me veio à memória o filme “Os Incompreendidos”, de Francois Truffaut, do menino que ele foi, quando um professor de inglês o pediu para pronunciar uma palavra de maneira correta encostando a ponta da língua entre os dois dentes da frente, recebendo a resposta de que nem todo o mundo tinha a técnica na ponta da língua. Então o professor explode e o manda sair de sala. Ri um pouco da lembrança constatando que a Dilma é uma Incompreendida. Sim... Porque a vida é complicada, foi a resposta que ela deu à Miriam Leitão. E isso aqui é um debate ou o Caldeirão do Hulk?! É... Nós, Os Incompreendidos, muitas vezes pensando, surge um mundo às nossas costas e outro à nossa frente, no entanto, não temos medo, nos lançamos ao existir, mergulhando e saindo pra respirar não voltamos sozinhos, trazemos mundos submersos, no mergulho que fazemos neste mundo, revitalizando o fôlego, os poros, os filhos do passado e do futuro, no presente. E nenhum de nós quer mergulhar em Caldeirão, no preparo pra Leitão. E tudo se explica, desdobrando, a gralha vira garça, a lagoa canta (soa) língua dobrabil.

31 de Outubro, 2014.

A Metamorfose Do Jack Matador Do Brasil


Impérios, donos do mundo, reis momos, enganação do poder, do Império que U.S.A e abusa dos pequenos-grandes novos burgueses, com suas propriedades e chaves secretas, tão secretas que levam ao abismo da Casa Branca, que não abre mas deixa no limite quem nunca foi Branco, nunca foi Americano, nunca foi Rico, nunca sentou na mesa com verdadeiros bancos. Se o português é macarrônico e o inglês é the spaghetti incident, não passa de sopa rala, culinária romana, que não deu nem pra Alexandrinos estômagos no tabuleiro europeu quanto mais para nordestinos, mulatos, Jack Daniel’s de beira de estrada, pistoleiros do velho oeste. O mundo tem dono nãodono, nãodano, cobrando, avançando no seu dano, e tão pouco se lixando pro corte da carne, pro preço dela no carnaval cotidiano, do adeus à vida, a quem criou o Emicida, o Criolo, no extenso campo de concentração de quem te treina, condiciona, desde o café da manhã, com Bom Dia Brasis, sem Mc’s, com Mcdonalds, conto da carochinha, patetas delações premiadas, até o Boa Noite Brasis diário, conto do vigário, que é geral. E todo dia sai pela boca “Jack, JaJack, JaJack, Jack matador!, Matador matador, ma, matador,
Matador matador, ma, matador” Arrotos do Jeca Tatu do Shopping Vitória, cavernal plantão de quem tem de ficar ligado no que tá rolando, enquanto a Casa Branca dorme em paz. Mas e se o Jack ou Jeca resolvesse plantar e colher os Brasis, para dar os frutos brasileiros? Certamente não teríamos mais a divisão entre campo e cidade, entre poder e simplicidade, e tudo seria bom pra chuchu, vivim da silva, com macarrão, espaguete, e prato cheio em toda casa, e dá palavra, onde todos teriam lugares nos bancos e ninguém enfrentaria fila, nem nos hospitais, com mais médicos na porta de casa, com medicina preventiva, e tudo seria vivo, sem palavra, pra muita lavra, curtição (sonzeira do silêncio).

23 de Outubro, 2014.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Patrulha Comunitária, Do Coração De Jesus


Mais uma rosa a compor a possa de sangue da minha rua. Aos poucos vão arrancando pétala por pétala as partes de seu coração, de modo que só é possível agarrar os espinhos da angústia, quando você também morre um pouco e a vida arregala-se num espanto conformado. Foi de manhã. Voltava da terceira consulta médica, numa sequência pra retirar o excesso de cerume do meu ouvido direito, depois de ficar algumas semanas sem ouvir nada desse ouvido, sentindo, quando falava, a voz ecoar. Quando a médica pressionou o jato de água que devolveu o acesso dos ruídos ao tímpano senti um alívio. Deve ter sido no mesmo momento que acertaram os dez tiros no jovem garoto da Rua da Assembleia, frequentador da baixada onde moro. Ao chegar em casa, na Rua Manoel Martins, vi, logo à frente, na curvatura que dá pra outra rua (a Rua Martins) um aglomerado de gente e um carro de polícia. Logo fui informado do acontecido. A médica me disse que foi difícil tirar o cerume porque meu ouvido tortuoso forma uma barreira que dificulta a chegada do jato de água, assim como a chegada do remédio que eu estava pingando. Os boatos que me chegaram sobre a morte foram os de sempre, envolvimento com drogas; tópica das reportagens e da fatalidade na periferia. Questionei-me por que um filho de empresário, arquiteto, engenheiro, bem-sucedidos, não é assassinado pelos mesmos motivos, muito menos em quantidade, na Ilha do Boi, na Ilha do Frade, em Jardim da Penha, cujos nomes são guardados por um invólucro edênico sob a proteção do capital. Trata-se de paraíso, sempre novo, onde não há pecado, onde o capital ao mesmo tempo é três. E assim é fácil, sem Édipo tudo é impassível. Ao contrário dos Jardins Tropicais. Porque aqui, só Jesus! E esse penou um bocado. Depois pensei: Será que estou ouvindo bem? No estado de exceção é que ouvimos esse brado retumbante. A consulta foi na Praia do Suá, onde tudo é calmo, tranquilo, com os trabalhadores de onde moro tomando conta dos carros, construindo prédios, atendendo aos telefones etc. Perguntei aos irmãos que estavam trabalhando numa obra se tava tranquilo, disseram: Tá tranquilo, irmão! É... Mesmo com o ouvindo limpo confirmei que meu canal auricular realmente faz muitas curvas. Lá, eu estava me consultando no Sim, quando cheguei em casa, captando as vozes da cena, percebi-me no Não. No coração de Jesus. Pensei: Ainda saio daqui, pra minha saúde, mas com o coração inteiro.

1 de Outubro, 2014.

A Cara Da Mídia Com Seus Cortes Profundos/ A Primeira Virada

A Cara Da Mídia Com Seus Cortes Profundos

O uso espontâneo do V de Vingança como símbolo do movimento "Não é apenas por 0,20 centavos, é por justiça", que se espalhou pelo Brasil afora, marca a cara do cinismo da mídia brasileira, e dos manifestantes, que devolvem o mesmo com uma cara marcada com cortes fundos. Desta maneira é que se estabelece o diálogo com a mídia (principalmente a Rede Globo), pois se querem nos dar um herói americano, que seja um herói que combate o cenário manipulador da própria mídia americana, e que enxerga a nobreza que há por baixo de cada máscara, ou seja, todas as conquistas e produtos do povo que tentam manipular. E as marcas no rosto da mídia persistem em frases como "O gigante acordou", e as diversas paródias com tudo o mais que subestime o povo, como o grito "Vem pra rua! Vem pra rua! Vem pra rua!", que faz parte de uma propaganda da Ford, mas que também é tratada com cinismo, pois se querem carro na rua, queremos o povo reivindicando seus direitos e suas conquistas, remetendo aos famosos versos da letra "Brasil" ("Vamos pra rua/ Vamos pra rua"), de Cazuza, que fala que o Brasil é medroso, e que vai haver uma revolução ao contrário da de 64. E, já que trouxe Cazuza, relembro os versos de "Burguesia" ("Pobre de mim que vim do seio da burguesia/ Sou rico mas não sou mesquinho (acrescento, fui criado pela mídia mas não sou mesquinho)/ Eu também cheiro mal/ Eu também cheiro mal".

24 de Junho, 2013.


A Primeira Virada

Vi um edifício virar a face da Dilma, guerrilheira, numa visão aguda, ditadura, com cara de poucos amigos, parecida com o meu amor, naquela imensidade de gente. Quem diria, hein, que a guerrilheira ia dar a volta por cima! Nunca mais esquecerei essa projeção, sem Batman, planta daninha, diretamente do subsolo. O som era arabesco, a lírica bufólica. A Céu, que tava numa casa simples, no entorno da Gruta da Onça, foi a síntese latina do cruzeiro do sul, com antilhescas dores de cotovelo, banhando o chão da Rua Sete, feroz, Sagaz, doce como RAPadura, embolada sincera, homem bomba, errando assim, sinceramente. Isso porque o sol estava no violão, nas barbas do rapaz, nos vãos. Com o álcool já na cabeça chamei a maquiadora dos Bardos de maquiagista, e insisti na especialidade, embora ela insistisse ser maquiadora; estava eu de cinegrafista? Com a cabeça cheia de conexões impossíveis, de segundos niilistas, das frases sem paradeiro daquele que cantou na Casa Porto das Artes. E os drones? Foram implodidos no plano molecular? Estava eu servindo de boi de piranha nesse imenso rio da Jerônimo Monteiro, por onde passou o cortejo da banda de congo Amores da Lua? Minha garota tava com cara de poucos amigos, mas com muita alegria dentre os poucos; eu, lia toda a intervenção, rindo um bocado. De madrugada fomos pra casa dela, tudo estava confortável nos braços da guerrilheira, por onde passou muitas águas fílmicas, com algas, sem algas, mas de um brilho límpido, dos olhos de luar, da página que nunca mais esquecerei. Se depender de mim terão outras, com a cara da guerrilheira.

15 de Setembro, 2014.

Grades Não Prendem Rio - Depois Do Mofo Os Líquens (Livro de Poesia)

http://issuu.com/wagnermaral/docs/grades_n__o_prendem_rio_-_depois_do