quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Patrulha Comunitária, Do Coração De Jesus
Mais uma rosa a compor a possa de sangue da minha rua. Aos poucos vão arrancando pétala por pétala as partes de seu coração, de modo que só é possível agarrar os espinhos da angústia, quando você também morre um pouco e a vida arregala-se num espanto conformado. Foi de manhã. Voltava da terceira consulta médica, numa sequência pra retirar o excesso de cerume do meu ouvido direito, depois de ficar algumas semanas sem ouvir nada desse ouvido, sentindo, quando falava, a voz ecoar. Quando a médica pressionou o jato de água que devolveu o acesso dos ruídos ao tímpano senti um alívio. Deve ter sido no mesmo momento que acertaram os dez tiros no jovem garoto da Rua da Assembleia, frequentador da baixada onde moro. Ao chegar em casa, na Rua Manoel Martins, vi, logo à frente, na curvatura que dá pra outra rua (a Rua Martins) um aglomerado de gente e um carro de polícia. Logo fui informado do acontecido. A médica me disse que foi difícil tirar o cerume porque meu ouvido tortuoso forma uma barreira que dificulta a chegada do jato de água, assim como a chegada do remédio que eu estava pingando. Os boatos que me chegaram sobre a morte foram os de sempre, envolvimento com drogas; tópica das reportagens e da fatalidade na periferia. Questionei-me por que um filho de empresário, arquiteto, engenheiro, bem-sucedidos, não é assassinado pelos mesmos motivos, muito menos em quantidade, na Ilha do Boi, na Ilha do Frade, em Jardim da Penha, cujos nomes são guardados por um invólucro edênico sob a proteção do capital. Trata-se de paraíso, sempre novo, onde não há pecado, onde o capital ao mesmo tempo é três. E assim é fácil, sem Édipo tudo é impassível. Ao contrário dos Jardins Tropicais. Porque aqui, só Jesus! E esse penou um bocado. Depois pensei: Será que estou ouvindo bem? No estado de exceção é que ouvimos esse brado retumbante. A consulta foi na Praia do Suá, onde tudo é calmo, tranquilo, com os trabalhadores de onde moro tomando conta dos carros, construindo prédios, atendendo aos telefones etc. Perguntei aos irmãos que estavam trabalhando numa obra se tava tranquilo, disseram: Tá tranquilo, irmão! É... Mesmo com o ouvindo limpo confirmei que meu canal auricular realmente faz muitas curvas. Lá, eu estava me consultando no Sim, quando cheguei em casa, captando as vozes da cena, percebi-me no Não. No coração de Jesus. Pensei: Ainda saio daqui, pra minha saúde, mas com o coração inteiro.
1 de Outubro, 2014.
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