quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
São Francisco Em Quadro De Vik Muniz
Eu estava vestido de São Francisco, disposto a desfazer as armadilhas da mata escura. Mas quem sou eu pra emprestar a roupa que me foi dada de esmola, embora conversasse soberanamente com os transeuntes, com a voz a preço de moeda, não posso desfazer os matizes cara-coroa, e no fundo nem peço. Há muitos irmãos por parte de ninguém, e ninguém, é eco perdido, que engana a quem mirar. Quando alguém canta e só ouve a própria voz, aprende a enfrentar ninguém, e aí mora o perigo. É preciso criar alguém. Ninguém, são as multifaces de São Francisco, quimeras do desterro de quem se volta contra si, é Hulk Magrelo, rosto de São Francisco levando Soco na Cara, símbolo do mercado, da violência, Andy Warhol e suas voltas com Guevara, a outra face da pop art, do mercado negro, e eu admito que é bela, frouxa como gargalhada, mas forte como o choro, que também é bonito. Tudo é belo e pra ninguém, que alguém usufrui, eu usufruo e você usufrui, mas não chega a ser alguém, ainda são as armadilhas de ninguém, que mora na mata escura, o outro lado da moeda, cravada na mão, no chão. Todos escapamos, deixando alguém às voltas com ninguém, sem chegar nem perto, e todos encontramos os ecos na próxima quimera. Serão precisos quantos pedaços de ninguém até se fazer de alguém São Jorge, com o brilho humilde da moeda de São Francisco?
21 de Dezembro, 2014.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário