sábado, 8 de outubro de 2016

Cultura Sem Temer é Abrir Um Osso No Dente


No monumento às vítimas da ditadura uma abelha nos rondava, voando como uma borboleta. As luvas de boxe estavam penduradas na camisa do poeta Caê Guimarães. Aline, de vestido vermelho, questionou se estava doce. Te pergunto, caro leitor, se o suor é salgado o sangue pode ser doce? As borboletas e as abelhas tem algo de semelhante, o respeito pelas flores.
Do lado, na Praça Costa Pereira, um pregador fazia sua pregação. Nossa ação tinha algo de semelhante, melhor dizendo chamaria de despregação. Despregação do pobre, despregação do negro, despregação da mulher, despregação da cultura, dentre tantas tábuas do discurso, despregação da Ação Sem Temer.
Conversávamos sobre ações desse tipo, como os poemas do guardador de rebanhos distribuídos como papeizinhos de igreja, sem o nome do autor, ou melhor, “menos teu nome”, como o livro do Lucas dos Passos, que estava entre nós. Segundo Wladimir Cazé tratava-se de um projeto cultural de algum estado, pelo que me lembro nordestino.
Isso num dia após a morte de Muhammad Ali me parecia um cruzado de esquerda, ou um gancho de esquerda, numa disputa limpa, de vermelho sem desperdício. Caê Guimarães nos lembrou da foto de Ali com os Beatles, onde os quatro garotos de Liverpool caem em efeito dominó, com um soco em linha reta, ou jab. Que pude conferir quando cheguei em casa.
Muhammad Ali era um esportista muçulmano, um cidadão estadunidense de discurso afiado na luta dos direitos dos negros naquele país. Soube um pouco mais sobre ele lendo a autobiografia de Malcolm X, seu amigo de fé e ação social.
Lucas atentou para a chegada da polícia, destacando nossa provável concentração subversiva, com uma moça de vestido vermelho logo pela manhã, com vários rapazes barbudos, um rapaz de black power e com a camisa do Slayer, e ainda por cima reining blood (destaco eu), e a cor vermelha presente de alguma maneira em quase todos.
Os livrinhos da coletânea “Osso De Escrever” vieram com a Marília, que chegou com seus cachos de mel. Ela deixou o bloco de livros em cima de um dos seis blocos de metal que homenageiam cada um uma pessoa vítima da ditadura. A abelha também a rondou.
Com o sol a pino apareceu até mesmo o Dom Quixote, com sua tração, sua forma motriz, em forma de pêndulo no braço do poeta Caê Guimarães. E o poeta Waldo Motta nos mostrou sua chave, seu amuleto, sua arma de resistência.
Como o calor era intenso decidimos então ir para o Bar do Nei, na Rua Sete. Lá fizemos o sarau, antes de começar o samba com a presença de Édson Papo Furado, que durante o sarau se encontrava pensativo, na calçada. Depois do bar o sarau se estendeu para o lado, na Casa da Stael, uma loja de moda que também vende livros.
Assim terminamos nossa ação, com poesia, política, samba e moda. Num grande grito de fora Temer.
Voltei para casa com “menos teu nome”. Esquentei a comida, fiz meu prato, e no final abri um osso no dente.

6 de Junho, 2016.

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