sábado, 8 de outubro de 2016

A III Cachaçada Literária Foi Média Alta, Meu Drink Favorito


O Guanaaní Hostel exalava um aroma gostoso, espécie de cachaça e madeira, que mais adiante deu a aparelhagem pocket show do Rabujah um ar de cais. Logo pensei no drink “Menos Teu Nome”, só podia ser ele, é o livro que estou lendo, e apesar da pausa na leitura e da distância que me separava dele eu ainda estava com o seu cheiro.
Pra minha surpresa, encontrei o Lucas na fila das bebidas, logo que subi a escada. Ao perguntar sobre os drinks, notando que o mesmo já havia bebido alguns, ele me disse que pra eu que estava começando, e queria alcançar o nível dos demais, “Menos Teu Nome” era uma boa pedida para abrir a noite. Por que não? Foi com ele mesmo que abri.
Ao adentrar o espaço algo novo me foi revelado, eu via uma mansão de navio, onde apesar do tamanho para tanta gente tudo era amplo e se encaixava, desde a demora da fila do drink, já valendo uma paisagem observar a força e detalhe da bartender Kaká Rocha, até a sala de estar, com pessoas espalhadas pelo chão, pelos móveis, e de pé, de acordo com o seu modo de estar.
Então, depois dessa circulada pelo convés, depois de bater um papo com algumas pessoas (falei com o Lucas que no seu drink só faltou uma cor dourada para fechar com chave de ouro), me instalei na sala, um perfeito porão de cais, que se é que existe é o começo de novas ondas, uma nova maresia de pessoas com um cheiro de guardado que parece novo, onde o músico Rabujah começava a criar o clima.
Fiquei próximo à porta, de pé, com os cotovelos apoiados em um móvel com livros e outros objetos. Do meu lado tinha um garoto brincando de se esconder, sua estada ali foi tão permanente que eu já o olhava como parte da decoração. Eu e o poeta Caê Guimarães brincamos com ele sobre isso, o zoando.
Daí a pouco saí para pegar o meu drink, quando a Kaká já estava encerrando os seus preparos. A mesma encerrou com dois do mesmo, recomendando-o para outra pessoa, e Média Alta foi a saideira. Eu já estava preparado para tomar do próprio veneno, e pra falar a verdade não botava fé no purê de melancia como ingrediente, mas botava fé no limão siciliano e, principalmente, na infusão de anis.
Logo que vi o drink preparado o rosa me pareceu ótimo e quando provei então tudo junto me parecia mágico. Parecia que eu estava em um filme spaghetti de amor, com estrelas de condimento asiático, cuja paisagem evoca a matriz africana.
Terminei de ouvir as canções do Rabujah (com suas histórias de encanto) com esse gosto na boca e logo depois a escritora Aline Dias anunciava o recital aberto de poesias, me convocando para abrir, numa recepção que me fez me sentir em casa, como ela fez desde a minha entrada no evento, numa demora de festejo, quando encontramos a escritora Bernadette Lyra na saída. Ela disse que não provou o seu drink (o seu próprio veneno), porque não está bebendo, mas também não tirou o álcool pra não estragar a festa. Foi ali que eu vi a dimensão do jardim das delícias (que o poeta Orlando Lopes preferiu deixar em aberto, no seu próprio drink).
Então abri o recital com a história que minha esposa havia me contado e que eu achei de um engajamento muito espirituoso (confesso que na hora não citei seu nome). É sobre o whisky Jack Daniel’s, cuja receita se descobriu ser de autoria de um escravo. Assim ela concluiu: é aquela história, tia Anastácia cria a receita e Dona Benta leva a fama.
Isso tudo pude ver em duas horas de evento. Não quero dizer com isso que é uma média alta (seria autoestima demais). E esse drink foi um presente da bartender.
Dedico ele à nova geração que faz da arte, da política e da sociedade um lugar de usufruto, um jardim sem mal, que promete quebrar as barreiras para se estender!

21 de Julho, 2016.

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