sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A Que Horas Ele Sai

Era por volta das 12h e o sol estava a pino. Saí de casa limpo até demais, com o pensamento objetivo, concentrado na prova que eu iria fazer às 13h.
Esperava o ônibus na fila, com antecedência, mas notei que duas moças que também iriam fazer a prova comentaram que um outro coletivo sairia 15 minutos antes. Me aproximei delas e puxei conversa para confirmar. Chegaria com tempo de folga para achar o local de prova, para não dar chance para essa aflição. Elas me disseram que também tinham esse objetivo. Entramos.
Conversávamos sobre a área de cada um. Uma moça era de Química, a outra de Artes, e eu de Língua Portuguesa. Nos desejamos sorte sincera, com sorrisos que revelavam não sermos concorrentes. Corríamos juntos, literalmente.
Quando avistamos uma senhora por volta dos 45 anos, com as marcas que a vida lhe dera, por muito de descuido, negligência ou desamor, entrar no ônibus inquieta, segurando um copo de suco, que aparentava ser de manga.
Próxima à catraca perguntava a que horas o ônibus iria sair, reclamava da demora, com as pernas e os braços saltitantes, para espanto dos outros passageiros que expressavam medo por conta do suco, que podia ser derrubado, propositalmente ou de forma acidental, mas principalmente pela imprevisão aparente. E embora passageira, não aparentava ir à lugar algum.
Meu foco era não me sujar. Não olhei pra ela pra não dar confiança. Resvalava o olhar sem que ela percebesse para não tirar a confiança que eu tinha de que tudo iria dar certo.
Quando o ônibus ia sair ela se posicionou com o braço esquerdo do outro lado da catraca, balançando o copo. O motorista estava em seu posto. Foi o trocador pisar o primeiro degrau e encará-la por segundos de um número de circo, uma cena de teatro, cinema ou novela, e decidir pular para trás no instante em que a porta da frente recebia o líquido, embaçando o vidro.
A mulher parecia satisfeita. O desafeto com raiva nos olhos imediatamente foi retirá-la do corredor, onde ela parecia perdida. Agarrou-a pelo braço, e com um certo romantismo levou-a para fora parecendo bailar.
A alegria foi geral. Elogios para a agilidade do trocador. Apesar da constatação de que a senhora já era patrimônio do Terminal do IBES. E a suposição de desilusão amorosa para o que parecia vingança declarada aos trocadores vinha esperançosa com a conjectura de uma nova paixão, para o que demonstrou ser um trocador galante.
Com tamanha leveza, a tensão e a pequena sujeira dissiparam-se, e do tablado ao final do corredor se sentia um ar consagrado.

10 de março, 2016.

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