sábado, 8 de outubro de 2016

Quem Tem Medo Fica Em Casa! Mas como? Fui Criado Na Rua!


Era sexta-feira 13. A Fábrica de Ideias estava às moscas. Fui com a camisa do Sepultura Roots, com suas raízes de sangue, sua taba, e o índio centralizado, que as raízes o sangue e a taba circundam de cima a baixo. Pouco tempo depois de sentar à mesa e distribuir os livros para o lançamento, fui informado que um morador de rua estava morto no banheiro, provavelmente por overdose.
Até aquele momento a participação no evento valeu mesmo pela conversa e a troca de livros com o escritor Hudson Ribeiro, que após uma passada de olho no Classe Média Baixa, me disse que morou em Sotema, bairro próximo de Porto de Santana, e em sua época saia do seu bairro para jogar futebol no campo do Cauê, tradição que se manteve forte até os meus dias e acredito que ainda hoje grupos de moleques e marmanjos o façam. É estimulante por conta dos pés de goiaba que animam a espera dos times derrotados, a ostra colhida da pedra e o banho de maré após o jogo.
Porque atrás do campo tem uma mata, atrás da mata tem uma ilha, do lado da ilha outra ilha. Adentrando o mangue o caminho para chegar à primeira ilha é feito de mariscos e areia, e a ramificação do ecossistema é feita de caminhos lindíssimos onde se via xexéus subindo e parados em árvores. Na saída do mangue, dando para a estrada que liga direto à primeira ilha o chão é feito de areia e é submerso. Para a segunda ilha o buraco era mais embaixo e poucos se arriscavam.
Voltando do excurso, porque linha reta pra caranguejo tem 360 graus, o Hudson me disse que nota uma percepção coletiva, que escapa o metro quadrado (acrescentei) dos moleques e marmanjos criados em apartamentos, tipo a “floresta de concreto” do Mano Brown em Negro Drama, ou na participação com Jorge Ben Jor, em Umbabarauma, “de mangue a mangue pra juntar dez conto”.
Os exemplos são muitos, e na conversa pude notar que tudo o que vem desse tipo de olhar sobrevive porque as raízes são tantas que é impossível cortar, sempre está crescendo algo que nos fortalece.
E pensando agora o lance do futebol é interessante porque ele saía de um lado e eu saía de outro, se se considera a estrada de Porto Velho referência para o grupo dele e atravessar Porto de Santana referência para o meu, já que eu morava em Porto Novo. Se existe alguma linha imaginária nos encontramos nela, e quadrado que o seja o campo deu voltas.
O fato é que estávamos ali com nossas esposas (eu também com a minha mãe) de luto pela democracia, pelo Brasil dos mangues e favelas, pelas comunidades. E apesar de tudo as mulheres nos pediam para sorrir para as fotos, pois sorriamos na conversa, sorriamos para a vida, e elas nos lembravam que um sorriso negro traz felicidade, e de que negro é a raiz da liberdade.

15 de Maio, 2016.

Cultura Sem Temer é Abrir Um Osso No Dente


No monumento às vítimas da ditadura uma abelha nos rondava, voando como uma borboleta. As luvas de boxe estavam penduradas na camisa do poeta Caê Guimarães. Aline, de vestido vermelho, questionou se estava doce. Te pergunto, caro leitor, se o suor é salgado o sangue pode ser doce? As borboletas e as abelhas tem algo de semelhante, o respeito pelas flores.
Do lado, na Praça Costa Pereira, um pregador fazia sua pregação. Nossa ação tinha algo de semelhante, melhor dizendo chamaria de despregação. Despregação do pobre, despregação do negro, despregação da mulher, despregação da cultura, dentre tantas tábuas do discurso, despregação da Ação Sem Temer.
Conversávamos sobre ações desse tipo, como os poemas do guardador de rebanhos distribuídos como papeizinhos de igreja, sem o nome do autor, ou melhor, “menos teu nome”, como o livro do Lucas dos Passos, que estava entre nós. Segundo Wladimir Cazé tratava-se de um projeto cultural de algum estado, pelo que me lembro nordestino.
Isso num dia após a morte de Muhammad Ali me parecia um cruzado de esquerda, ou um gancho de esquerda, numa disputa limpa, de vermelho sem desperdício. Caê Guimarães nos lembrou da foto de Ali com os Beatles, onde os quatro garotos de Liverpool caem em efeito dominó, com um soco em linha reta, ou jab. Que pude conferir quando cheguei em casa.
Muhammad Ali era um esportista muçulmano, um cidadão estadunidense de discurso afiado na luta dos direitos dos negros naquele país. Soube um pouco mais sobre ele lendo a autobiografia de Malcolm X, seu amigo de fé e ação social.
Lucas atentou para a chegada da polícia, destacando nossa provável concentração subversiva, com uma moça de vestido vermelho logo pela manhã, com vários rapazes barbudos, um rapaz de black power e com a camisa do Slayer, e ainda por cima reining blood (destaco eu), e a cor vermelha presente de alguma maneira em quase todos.
Os livrinhos da coletânea “Osso De Escrever” vieram com a Marília, que chegou com seus cachos de mel. Ela deixou o bloco de livros em cima de um dos seis blocos de metal que homenageiam cada um uma pessoa vítima da ditadura. A abelha também a rondou.
Com o sol a pino apareceu até mesmo o Dom Quixote, com sua tração, sua forma motriz, em forma de pêndulo no braço do poeta Caê Guimarães. E o poeta Waldo Motta nos mostrou sua chave, seu amuleto, sua arma de resistência.
Como o calor era intenso decidimos então ir para o Bar do Nei, na Rua Sete. Lá fizemos o sarau, antes de começar o samba com a presença de Édson Papo Furado, que durante o sarau se encontrava pensativo, na calçada. Depois do bar o sarau se estendeu para o lado, na Casa da Stael, uma loja de moda que também vende livros.
Assim terminamos nossa ação, com poesia, política, samba e moda. Num grande grito de fora Temer.
Voltei para casa com “menos teu nome”. Esquentei a comida, fiz meu prato, e no final abri um osso no dente.

6 de Junho, 2016.

A III Cachaçada Literária Foi Média Alta, Meu Drink Favorito


O Guanaaní Hostel exalava um aroma gostoso, espécie de cachaça e madeira, que mais adiante deu a aparelhagem pocket show do Rabujah um ar de cais. Logo pensei no drink “Menos Teu Nome”, só podia ser ele, é o livro que estou lendo, e apesar da pausa na leitura e da distância que me separava dele eu ainda estava com o seu cheiro.
Pra minha surpresa, encontrei o Lucas na fila das bebidas, logo que subi a escada. Ao perguntar sobre os drinks, notando que o mesmo já havia bebido alguns, ele me disse que pra eu que estava começando, e queria alcançar o nível dos demais, “Menos Teu Nome” era uma boa pedida para abrir a noite. Por que não? Foi com ele mesmo que abri.
Ao adentrar o espaço algo novo me foi revelado, eu via uma mansão de navio, onde apesar do tamanho para tanta gente tudo era amplo e se encaixava, desde a demora da fila do drink, já valendo uma paisagem observar a força e detalhe da bartender Kaká Rocha, até a sala de estar, com pessoas espalhadas pelo chão, pelos móveis, e de pé, de acordo com o seu modo de estar.
Então, depois dessa circulada pelo convés, depois de bater um papo com algumas pessoas (falei com o Lucas que no seu drink só faltou uma cor dourada para fechar com chave de ouro), me instalei na sala, um perfeito porão de cais, que se é que existe é o começo de novas ondas, uma nova maresia de pessoas com um cheiro de guardado que parece novo, onde o músico Rabujah começava a criar o clima.
Fiquei próximo à porta, de pé, com os cotovelos apoiados em um móvel com livros e outros objetos. Do meu lado tinha um garoto brincando de se esconder, sua estada ali foi tão permanente que eu já o olhava como parte da decoração. Eu e o poeta Caê Guimarães brincamos com ele sobre isso, o zoando.
Daí a pouco saí para pegar o meu drink, quando a Kaká já estava encerrando os seus preparos. A mesma encerrou com dois do mesmo, recomendando-o para outra pessoa, e Média Alta foi a saideira. Eu já estava preparado para tomar do próprio veneno, e pra falar a verdade não botava fé no purê de melancia como ingrediente, mas botava fé no limão siciliano e, principalmente, na infusão de anis.
Logo que vi o drink preparado o rosa me pareceu ótimo e quando provei então tudo junto me parecia mágico. Parecia que eu estava em um filme spaghetti de amor, com estrelas de condimento asiático, cuja paisagem evoca a matriz africana.
Terminei de ouvir as canções do Rabujah (com suas histórias de encanto) com esse gosto na boca e logo depois a escritora Aline Dias anunciava o recital aberto de poesias, me convocando para abrir, numa recepção que me fez me sentir em casa, como ela fez desde a minha entrada no evento, numa demora de festejo, quando encontramos a escritora Bernadette Lyra na saída. Ela disse que não provou o seu drink (o seu próprio veneno), porque não está bebendo, mas também não tirou o álcool pra não estragar a festa. Foi ali que eu vi a dimensão do jardim das delícias (que o poeta Orlando Lopes preferiu deixar em aberto, no seu próprio drink).
Então abri o recital com a história que minha esposa havia me contado e que eu achei de um engajamento muito espirituoso (confesso que na hora não citei seu nome). É sobre o whisky Jack Daniel’s, cuja receita se descobriu ser de autoria de um escravo. Assim ela concluiu: é aquela história, tia Anastácia cria a receita e Dona Benta leva a fama.
Isso tudo pude ver em duas horas de evento. Não quero dizer com isso que é uma média alta (seria autoestima demais). E esse drink foi um presente da bartender.
Dedico ele à nova geração que faz da arte, da política e da sociedade um lugar de usufruto, um jardim sem mal, que promete quebrar as barreiras para se estender!

21 de Julho, 2016.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A Que Horas Ele Sai

Era por volta das 12h e o sol estava a pino. Saí de casa limpo até demais, com o pensamento objetivo, concentrado na prova que eu iria fazer às 13h.
Esperava o ônibus na fila, com antecedência, mas notei que duas moças que também iriam fazer a prova comentaram que um outro coletivo sairia 15 minutos antes. Me aproximei delas e puxei conversa para confirmar. Chegaria com tempo de folga para achar o local de prova, para não dar chance para essa aflição. Elas me disseram que também tinham esse objetivo. Entramos.
Conversávamos sobre a área de cada um. Uma moça era de Química, a outra de Artes, e eu de Língua Portuguesa. Nos desejamos sorte sincera, com sorrisos que revelavam não sermos concorrentes. Corríamos juntos, literalmente.
Quando avistamos uma senhora por volta dos 45 anos, com as marcas que a vida lhe dera, por muito de descuido, negligência ou desamor, entrar no ônibus inquieta, segurando um copo de suco, que aparentava ser de manga.
Próxima à catraca perguntava a que horas o ônibus iria sair, reclamava da demora, com as pernas e os braços saltitantes, para espanto dos outros passageiros que expressavam medo por conta do suco, que podia ser derrubado, propositalmente ou de forma acidental, mas principalmente pela imprevisão aparente. E embora passageira, não aparentava ir à lugar algum.
Meu foco era não me sujar. Não olhei pra ela pra não dar confiança. Resvalava o olhar sem que ela percebesse para não tirar a confiança que eu tinha de que tudo iria dar certo.
Quando o ônibus ia sair ela se posicionou com o braço esquerdo do outro lado da catraca, balançando o copo. O motorista estava em seu posto. Foi o trocador pisar o primeiro degrau e encará-la por segundos de um número de circo, uma cena de teatro, cinema ou novela, e decidir pular para trás no instante em que a porta da frente recebia o líquido, embaçando o vidro.
A mulher parecia satisfeita. O desafeto com raiva nos olhos imediatamente foi retirá-la do corredor, onde ela parecia perdida. Agarrou-a pelo braço, e com um certo romantismo levou-a para fora parecendo bailar.
A alegria foi geral. Elogios para a agilidade do trocador. Apesar da constatação de que a senhora já era patrimônio do Terminal do IBES. E a suposição de desilusão amorosa para o que parecia vingança declarada aos trocadores vinha esperançosa com a conjectura de uma nova paixão, para o que demonstrou ser um trocador galante.
Com tamanha leveza, a tensão e a pequena sujeira dissiparam-se, e do tablado ao final do corredor se sentia um ar consagrado.

10 de março, 2016.