segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Putrefação Do Sepultura No Cavalera Conspiracy



Nunca vi arrotar e expelir um metal precioso com tanta facilidade diante do microfone no pedestal. Presenciei a fúria de um monstro que nos momentos mais violentos abria a mão como que segurando um coração pulsante. Com as barbas de um filósofo grego e os cabelos enraizados com tocos de uma velha árvore africana, Max Cavalera é um ícone blasfemado por ele mesmo, que quase não permite risada tamanho o medo de o ofender. A prosódia na condução das palavras é de um João Gilberto, e com a consistência de um Lemmy do Motorhead a coisa vai absorvendo tons, ora de um defão estilo Deicide, ora de um estridente grito black metal, mas é com a síntese no thrash metal gutural e falado que transmite sua filosofia. Essa foi a minha impressão do show do Cavalera Conspiracy, que aconteceu na noite de ontem no Ilha Shows. “Vamo botar pra foder Vitória filha da puta” foi a frase que consegui montar diante de tanta consciência do submundo infernal que o cara deixa na maior paz, numa negatividade positiva. Aí me veio à lembrança, houve um tempo que fui um metaleiro e reneguei a influência do samba, que eu tinha em casa e, querendo ou não, escutava desde criança. Até que ouvi o Roots, com um tanto de vibração indígena da tribo Xavante. Depois ouvi o disco Sepultura: B – Sides, com Zé do Caixão, Lampião e Zumbi dos Palmares na capa frontal, uma coletânea, que tenho até hoje, com o destaque da remasterização carnavalesca, que alguns amigos odiavam e outros gostavam ironizando. E por último veio o primeiro disco do grupo que ele montou após deixar o Sepultura, o Soulfly, que logo adquiri e vi uma lista de agradecimentos imensa no encarte, desde João Gilberto e Jorge Ben Jor (com uma bela regravação de Umbabarauma) a Motorhead e Napalm Death. Passei um tempo deglutindo aquele vômito de influências, pensando se era possível tamanha síntese. Após deglutir, acabei me abrindo pra outros estilos musicais, principalmente brasileiros, resgatando tudo que me influenciou, querendo ou não, e passando pra literatura, arte que não sei se eu escolhi ou ela me escolheu pra expressar. Então, ao ir ao show, pensei em levar o meu livro Classe Média Baixa pra dar de presente ao Max. Não acreditando na possibilidade, que no final do show um amigo me mostrou ser possível, conseguindo um autógrafo do baixista Nate Newton, que logo após o show, fumava numa zona lateral à entrada, que os seguranças ainda não tinham bloqueado, acabei por deixar o livro em casa, num arrependimento amargo. Ao chegar em casa disse pra minha companheira que devia ter levado o livro e dado pro baixista entregar ao Max. Sabendo da minha inexistente fluência no inglês ela disse: Difícil seria você conseguir se comunicar com ele. No que eu disse: Nada! Seria fácil, eu ia dizer ao entregar o livro: Max, bossa nova, samba, gesticulando e rindo um bocado.

18 de Maio, 2015.